Áurea Martins - foto ©Sergio Caddah 

"Em qualquer país que preze sua cultura, Áurea Martins seria incensada. No Brasil, terra de indigência e cascatas culturais, Áurea Martins não aparece nas rádios nem na televisão. É como se privássemos o povo brasileiro de beber em fonte límpida. Cantar é, já disse e repito, o Maior Espetáculo da Alma. E nossa própria alma nunca se redimirá sem a voz sagrada de Áurea. Ela faz parte, e talvez seja a última representante, de uma tradição inesgotavelmente rica, e é também pedagógica, porque uma porção de gente que se acha cantora tem muito que aprender com a Áurea Martins. É incrível que uma artista assim diamantífera, única, jóia da Coroa de Ouro formada por cantoras como Ângela Maria, as Irmãs Baptistas, Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, Elis Regina, Aracy de Almeida, Clementina de Jesus  permaneça em ostracismo cruel. Áurea Martins é o elo vivo de uma história, de uma Legenda Cultural nossa – uma Legenda Áurea!"
Aldir Blanc, no encarte do álbum "Depontacabeça" de Áurea Martins. (Selo Biscoito Fino, 2010)


Mini-bio Áurea Martins

Áurea Martins (Áldima Pereira dos Santos), nasceu no bairro de Campo Grande, na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, no dia 13 de junho de 1940.

Áurea brotou e floresceu duma cepa de músicos (sua avó tocava banjo) radicada na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Suas primeiras apresentações em público dão-se como integrante do coral do Ginásio Estadual “Raja Gabaglia”. No final da adolescência, passa a frequentar os clubes de jazz do subúrbio e a atuar como lady crooner do conjunto dos tios em bailes da periferia. Na primeira metade dos anos 60, começa a ser atraída para o centro da cidade. Numa renovação do cast da Rádio Nacional, é incluída entre os novos integrantes do elenco da emissora, ao lado de Alaíde Costa, Peri Ribeiro (1937-2012) e Elis Regina (1945-1982), sob o incentivo de Paulo Gracindo (1911-1995) e Mário Lago (1911-2002). Aliás, foi a dupla Gracindo e Lago que transformou Áldima, em Áurea Martins na primeira metade da década de 1960. A sua voz é registada em disco pela primeira vez, numa faixa do LP 'Alvorada dos Novos' (1963), produzido por Altamiro Carrilho (1924-2012), para a Copacabana.

Em 1969, vence a quarta edição do programa anual A Grande Chance, criado e apresentado por Flávio Cavalcanti (1923-1986), para a Rede Tupi de Televisão. A final ocorreu no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Pelo primeiro lugar, conquistado com a nota máxima de todos os jurados, Áurea recebe como prêmio uma viagem a Portugal e um contrato para gravação de disco na RCA Victor.

Após registrar dois compactos, produzidos por Rildo Hora, com arranjos de Guerra Peixe (1914-1993), Áurea Martins lança em 1972 seu primeiro LP O amor em paz’. Disco produzido por Rildo, com arranjos do pianista Luís Eça (1936-1992) e a participação do poeta Paulo Mendes Campos (1922-1991) –, Áurea é acompanhada pelo Tamba Trio (Bebeto, Luiz Eça e Ohana), e o violonista Luís Cláudio Ramos.

De crooner de orquestras em bailes da Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro (RJ), Áurea se transformou, ao longo dos anos 1970 e 1980, numa respeitada cantora da noite em boates e casas noturnas, situadas no Centro e, sobretudo, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Entre elas, a 706, com Emílio Santiago e Djavan; a Dancing Avenida e a Carioca da Gema; Já no 'Chiko’s Bar' Áurea se apresenta ao lado dos pianistas Zé-Maria Rocha, Johnny Alf e Luís Carlos Vinha "Antonino". Na década seguinte, alcança a tão almejada autonomia artística de cantora, passando a fazer shows inéditos em teatros e participando de espetáculos musicais ao lado de vários artistas. Nessa fase, Áurea Martins estreia ao lado da cantora Zezé Gonzaga (1926–2008) e do pianista, amigo e fiel escudeiro Zé Maria Rocha, o espetáculo dedicado a obra de Lupicínio Rodrigues (1914-1974), que lhe rendeu visibilidade, começando a aparecer nos jornais com destaque em rito de passagem, que culminou com a retomada da carreira fonográfica em meados de 2000. A “crooner de voz rouca”, Áurea Martins é reconhecida pelo compositor, cantor, escritor e estudioso das culturas africanas, Nei Lopes como uma das três maiores cantoras do Brasil.  

Em 2003, lançou, o CD 'Áurea Martins', que contou com a participação especial de Nelson Sargento. Disco produzido por Dalva Lazaroni, com direção musical de João de Aquino.

Em 2007, integrando a Orquestra Lunar, lançam o CD homônimo do grupo, pelo Selo Rádio MEC.

Em 2008, lança, pela Biscoito Fino, o CD 'Até Sangrar', produzido por Hermínio Bello de Carvalho e pelo pianista Zé Maria Rocha. O disco lhe rende o "Prêmio da Música Brasileira" como "Melhor Cantora" na categoria MPB (2009).

Em 2010, lançou, o CD "Depontacabeça", pela Biscoito Fino, celebrando seus 70 anos de idade e 50 de carreira. Disco produzido por Hermínio Bello de Carvalho e Lucas Porto, com texto de encarte escrito por Aldir Blanc.

Em fevereiro de 2012, o Canal Brasil exibiu o especial “Iluminante”, trazendo um panorama da sua vida musical, narração de Fernanda Montenegro, com participações especiais, entre eles, Chico Buarque. Em julho do mesmo ano, a Biscoito Fino, lança o DVD/CD “Iluminante”, idealizado e produzido por Hermínio Bello de Carvalho.

Em 2014, com a cantora Alaíde Costa, estreia o show ‘Elizethíssima – uma sincera homenagem a Elizeth Cardoso’, idealizado por Hermínio Bello de Carvalho.

Em dezembro 2017, a sua biografia "Áurea Martins: a invisibilidade visível", escrita por Lucia Neves, é lançada pela editora Folhas Secas, com capa de Gringo Cardia, sobre foto de Percio Campos. Em novembro do mesmo ano, Áurea é laureada com o Prêmio "Grão de Música", troféu Elifas Andreato, pela interpretação da música "Bola no bola" (Vidal Assis e Hermínio Belo de Carvalho). O prêmio tem direção artística e coordenação geral da cantora e compositora paraibana Socorro Lira.

No ano de 2018, é convidada para integrar o show e disco 'Sueli Costa convida Fernanda Cunha & Áurea Martins - ao vivo', com produção e roteiro de Fernanda Cunha.

Em 2019, ao lado de Gonzaga Leal, lança o CD 'Olhando o céu, viu uma estrela', uma homenagem a Dalva de Oliveira.  

Por ocasião das celebrações possíveis nos 80 anos de Áurea Martins, em pleno isolamento pandêmico do covid, em junho de 2020, dois projetos foram lançados na internet: "Tempos Áureos", com produção de Alcides Sodré e Michele Agra e "80 Homenagens Áureas", produzido e conduzido por Paulo Cunha.

Em 2021, lança com João Senise o CD “Quase 50 Aurea Martins encontra João Senise”. O álbum tem direção musical, arranjos e piano do maestro Gilson Peranzzetta.

Em março de 2022, lança o disco "Senhora das Folhas", pelo selo Biscoito Fino, com patrocínio da Natura musical. Idealização e direção artística de Renata Grecco, com direção musical, produção e arranjos de Lui Coimbra. O álbum é uma homenagem às curandeiras, rezadeiras e benzedeiras, personagens do universo feminino sagrado, guardiãs da sabedoria popular, da fé e da tradição. O disco arrebatou a crítica e o público. Indicado ao Grammy em 2022 e em 2023 recebeu o Prêmio Profissionais da Música na categoria de melhor álbum.

Em 2024, lança com João Senise "Aurea Martins e João Senise celebram Sinatra & Jobim", o disco tem direção musical e arranjos do maestro Gilson Peranzzetta.

Áurea Martins para além dos discos autorais e em parceria, tem participação especial em uma longa discografia da música brasileira, ela gravou canções em mais 70 álbuns de diversos artistas, entre 1963 e 2025, como: Rildo Hora, Délcio Carvalho, Paulo César Fetal, Alcione, Wilson das Neves, João Callado, Fernando Temporão, Heitor dos Prazeres Filho, Márcio Lott, Leandro Fregonesi, Ivor Lancellotti, Moyseis Marques, Dona Ivone Lara, Fhernanda Fernandes,  Tico de Moraes, Angela Ro Ro, João Senise, João Cavalcanti, Roberta Sá, Hermínio Bello de Carvalho, Vidal Assis, Zélia Duncan, Ana Costa, Cristovão Bastos, Verônica Ferriani, Nelson Sargento, os songbooks de Tom Jobim (v. 5) e Chico Buarque (v.8), produzidos por Almir Chediak, entre muitos outros.

Áurea também deixou a sua história registrada para posteridade, em gravação no Museu da Imagem e do Som – MIS Rio (2017), no projeto “Depoimentos para a posteridade”. Tem dois curta-metragens dedicados à sua obra e vida musical, 'Áurea' (2009), de Zeca Ferreira; e 'A dama da noite: Áurea Martins' (2017), de Luciana Requião. Participou de diversos documentários dedicados a personagens das artes, além, de especiais e programas de TV dedicados a diversos artistas da cena musical brasileira. Consta e participa do livro 'Solistas dissonantes: história (oral) de cantoras negras', de Ricardo Santhiago (Letra e Voz/2009), dedicado a histórias orais de treze cantoras negras brasileiras. Ao longo dos anos recebeu homenagens, condecorações e prêmios pela obra e sua atuação na cena musical brasileira.

Aurea Martins ao longo da sua trajetória artística, em mais de 65 anos dedicados à música, apresentando um repertório refinado que atravessa gerações e parcerias com diferentes mestres da música brasileira, estreou diferentes espetáculos e participou de inúmeros shows e apresentações, ao lado de nomes importantes da música brasileira, como:  Alaíde Costa, Johnny Alf, Dona Ivone Lara, Carmen Costa, Angela Suarez, Nelson Sargento, Daúde, Teresa Cristina, Zezé Motta, Renato Braz, Leci Brandão, Gabi Buarque, João de Aquino, Zezé Gonzaga, Mart'nália, Alcione, Elza Soares, Marisa Gata Mansa, Emílio Santiago, Nilze Carvalho, Vidal Assis, Ana Costa, Daniela Spielmann, Leny Andrade, João Senise, Socorro Lira, Luiz Melodia, Zé Maria Rocha, Cristovão Bastos, Gilson Peranzzetta, Cláudio Jorge,  Amelia Rabello, Wilson das Neves, Marcos Sacramento, Lui Coimbra, Alfredo Del Penho, Moyseis Marques, entre muitos outros. Integrou a Orquestra Lunar, com a qual realizou shows e gravou um disco. Ganhou um palco com o nome dela no Palácio da Música, no Flamengo (Rio de Janeiro). 

Aos 85 anos, Áurea Martins segue cantando, gravando e fazendo shows nos palcos da música e da vida, impondo sua emblemática voz rouca, com seu jeito único e atemporal, conquistando novos admiradores por onde se apresenta.

Em novembro 2025, lança com Cristovão Bastos, o álbum ‘Amizade’ (Garapa Records), celebrando décadas de parceria musical e afeto. O disco contou com produção musical de Roberto Didio e Miguel Rabello. 
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*Imagens ilustrativas: Áurea Martins - foto ©Sergio Caddah; Aurea Martins - Senhora das Folhas - foto ©Dan Coelho



ROUXINOL
Para Aurea Martins
(Gilson Peranzzetta/Vidal Assis)

No horizonte da canção 
bebo o amanhecer 
pro meu canto, então, 
nascer

E me sinto iluminada

Sem saber a direção 
aprendi a crer 
deixo o coração 
dizer

Não preciso de mais nada

No poente da canção, bem sei, 
sempre existe um bom lugar 
que é sem lei
E onde o tempo dança devagar

Minha voz se torna, enfim, um rouxinol 
que alça voo e que me serve de farol

E eis que os lábios meus 
encontram Deus


- ♪ -


"Áurea Martins, musa inspiradora, mãe de tantos, mãe da música: nós amamos sua verdade, nós amamos sua coragem, seus critérios, suas palavras e coração."
- Veronica Ferriani


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CRÉDITOS DE PESQUISA E DO SITE
:: Coordenação e produção: Eliana Peranzzetta
:: Pesquisa, seleção, organização e edição: Elfi Kürten Fenske
:: Foto de capa do site:  Aurea Martins, por Tyno Cruz
:: Todos os direitos reservados: ©Aurea Martins
:: Criação: Fevereiro 2026 
:: Página atualizada em: 18.2.2026

Um comentário:

  1. Linda, maravilhosa!!!!! Eu amo essa grande artista. Não consigo conter a emoção de ouvi lá . Sucesso e saúde para você ,brilhante Áurea Martins.

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